Nutricionista vegano comenta Youtuber vegana flagrada comendo peixe : Nanda Cury

Nutricionista vegano comenta caso de YouTuber vegana flagrada comendo peixe

Nanda Cury

Frugívora e vegana, adepta da alimentação natural e da beleza consciente, compartilha dicas diárias sobre esse estilo de vida nas suas redes sociais. Bacharel em Relações Internacionais, especialista em Marketing Digital, criou o Blog das Cabeludas, Crespas e Cacheadas (2008) e é uma das idealizadoras da Marcha do Orgulho Crespo (2015), iniciativas com o objetivo de incentivar mulheres a aceitarem seu cabelo natural.

30 de abril de 2019

Recentemente, duas Youtubers que me inspiraram durante a transição para o crudivorismo, (alimentação crua e vegana) vieram a público dizer que voltaram a comer alimentos de origem animal. Giovana Mendonza, conhecida como Rawvana e Alyse Brautigam, do canal Raw Alignment, já tinham deixado de ser crudívoras e nos últimos anos estavam mais focadas em promover o estilo de vida fitness e a alimentação baseada em plantas. Nenhuma delas, porém, enfatizava a defesa dos direitos dos animais como norteadora de seu estilo de vida.

Assim como grande parte dos fãs veganos, a minha primeira reação foi de raiva e de decepção, seguida de julgamento: “não é possível, vou deixar de seguí-las, fake-vegans, egoístas, se aproveitaram do movimento e nem veganas são, porque um vegano de verdade não voltaria a comer animais”. Após assistir aos vídeos em que elas comunicam ao seu público, de milhares de seguidores, que voltaram a comer peixe e ovos, deixei de seguí-las no Instagram.

O caso da Rawvana teve mais repercussão na mídia, já que ela tem 3 milhões de seguidores e foi flagrada comendo peixe, enquanto promovia uma alimentação vegana e programas de DETOX e de emagrecimento nas suas redes sociais. Após ser exposta, a Youtuber gravou um vídeo longo, em que justifica a mudança na alimentação a problemas de saúde que atribui à dieta que seguia. Como toda polêmica rende cliques, a mídia aproveitou a oportunidade para taxar o veganismo e o crudivorismo como dietas restritivas e que oferecem riscos para a saúde. Foi isso que me motivou a escrever esse texto, com o objetivo de oferecer a visão de um nutricionista vegano, praticante do crudivorismo, Eduardo Corassa, sobre o assunto. É interessante pontuar que a mídia, ao repercutir o caso, não procurou um profissional que desse um “outro lado” das questões nutricionais relacionadas à alimentação vegana, o que torna estas matérias mais tendenciosas que jornalísticas. Afinal, o que nutrólogos e médicos, que nem veganos são, sabem sobre alimentação vegana, para, exclusivamente, comentar o caso?

Considero fundamental que uma reportagem honesta e não tendenciosa deveria entrevistar um nutricionista vegano. Deve ser difícil para onívoros e para a indústria ver crescer a cada ano o número de pessoas veganas. Esse tipo de sensacionalismo serve de combustível para aqueles que lutam contra a crescente expansão vegana, pois a eles interessa questionar e fragilizar este movimento, para reforçar a sua própria crença e interesse de continuar comendo e explorando animais, se iludindo que uma dieta onívora é saudável.

Em conversa com o nutricionista Eduardo Corassa, maior autoridade em crudivorismo no Brasil, autor de sete livros sobre alimentação vegana, jejum e crudivorismo, ele é categórico sobre os casos das youtubers.

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>”Do ponto de vista nutricional não há nenhum nutriente essencial, nos produtos de origem animal, que não possamos obter numa dieta baseada em vegetais.”

, explica. Corassa reforça ainda que os problemas que ambas Youtubers relataram em seus vídeos estão provavelmente associados à falta de vitamina B12, que inclusive pode ocorrer numa dieta onívora também. Além disso, ambas praticavam restrição calórica, sem recomendação médica.

No caso da Rawanna, ela vendia um programa de emagrecimento, mesmo sem ser nutricionista, em que recomendava aos seus seguidores o consumo de 1200 calorias por dia. Corassa alerta para os perigos desse tipo de comportamento.

 

“Seguir uma dieta com restrição calórica, sem a indicação profissional, com base em uma recomendação de uma pessoa que não é médica ou nutricionista, pode ser perigoso para a saúde, seja você vegano ou não”

 

. Ele ainda pontua que esse tipo de recomendação não acontece no mundo vegano, como as reportagens dão a entender. “Tem muito onívoro dando dicas irresponsáveis de nutrição na internet”,

complementa.

Se do ponto de vista nutricional está provado que não precisamos de proteína animal para manter ou recuperar a saúde, já que não há nenhum nutriente essencial exclusivo nesses “alimentos”, fica o questionamento para que as pessoas reflitam que o veganismo não é uma dieta, que podemos iniciar e abandonar quando ela já não serve mais aos nossos interesses. Veganismo é um movimento político, em prol da libertação animal. As pessoas veganas deixam de comer alimentos de origem animal porque entendem que não temos a necessidade (portanto não temos o direito) de explorar e matar outros seres, já que podemos ter saúde com uma dieta bem planejada de origem vegetal.

Quem me acompanha, sabe que sigo a alimentação crudívora e vegana, orientada pelo nutricionista Eduardo Corassa. Segundo todas as evidências científicas, da biologia, da atropologia à bioquímica, a nossa espécie, que é classificada como primatas antropóides, não é onívora e sim frugívora, ou seja, fomos desenhados pela natureza para comer primariamente frutas e vegetais. As evidências indicam também que a espécie humana passou a comer animais e a preparar seus alimentos no fogo durante a última era glacial, em que nossos alimentos (frutas e vegetais) estavam congelados. Movidos pela escassez de alimentos e pela necessidade, seres humanos começaram a caçar animais e a cozinhar para sobreviver. Isso não quer dizer que porque nos adaptamos a uma dieta onívora e cozida mudamos a nossa natureza, que tal qual a maioria das espécies do planeta, é crudívora e vegana. Aceitar que fomos feitos para prosperar numa dieta baseada em alimentos de origem vegetal crua é um caminho libertador, quando esse conhecimento vem acompanhado de embasamento ético e entendemos que nossas escolhas alimentares geram impactos no planeta e na vida de outros seres. O maior desafio a alimentação crudívora e veg para quem deseja adotar, provavelmente, é a necessidade de ressignificar as relações afetivas e culturais que estabelecemos com a comida e com as pessoas, já que a culinária é uma construção social e permeia basicamente todas as nossas relações, ao longo da vida.

Diante do movimento crescente em que cada vez mais pessoas se conscientizam sobre a crueldade da exploração animal pela indústria, sobre as graves consequências de consumir animais para o meio ambiente e sobre os benefícios da alimentação de origem vegetal, não é de surpreender que a indústria alimentícia, que ainda é a principal anunciante das grandes mídias tradicionais, comemore esse tipo de reportagem, com viés tendencioso, que atende aos interesses do mercado.

Um estudo recente da Universidade de Oxford indicou que se todas as pessoas do mundo se tornassem veganas, haveria uma economia de 1 trilhão de dólares por ano em saúde pública, além disso 8 bilhões de vidas humanas seriam salvas. Quando falamos na quantidade de animais salvos, o cálculo é de 80 bilhões de animais terrestres por ano.
O consumo de proteína animal está associado às principais doenças crônicas e degenerativas da atualidade e a alimentação baseada em vegetais atua de forma preventiva com relação a essas doenças. A alimentação vegana não apenas salva vidas humanas, como também a de animais e é a única atitude com maior potencial de gerar impacto ambiental positivo.

Considerando todas as informações que já temos, e a força da indústria e da mídia contrárias à disseminação destas informações, o movimento vegano, mais que nunca, precisa ser estratégico no sentido de compreender que podemos usar este tipo de polêmica para disseminar informações a mais pessoas sobre os benefícios da alimentação vegana, ao invés de criticar atitudes individuais, ainda que algumas pessoas tenham o poder de influenciar milhões de seguidores. Nós podemos fazer mais quando questionamos a narrativa hegemônica e apresentamos a nossa versão dos fatos, com contextualização, ponderação e estudos.

O movimento vegano precisa se politizar para ser mais efetivo. Precisamos parar de aplaudir a mesma indústria que explora animais e que lança produtos industrializados, de origem vegetal, inacessíveis para a maioria da população, como leite de castanha a R$ 20. O ativista vegano, que realmente preza pela libertação animal, entende que não pode se distrair e iludir pelas indústrias alimentícias, afinal são elas quem lucram com a exploração dos animais e a destruição do planeta.

Precisamos de uma Cultura Vegana e de uma alimentação que seja acessível a todos, sobretudo às pessoas mais vulnerabilizadas, que são as principais impactadas pelas dietas industrializadas, baseadas em proteína animal barata e alimentos ultraprocessados. O caminho continua sendo a informação para uma cultura vegana e popular, que combata o nutricídio da população e transforme o sistema como todos nós consumimos os alimentos.

Nesse processo, precisamos cobrar a atualização dos currículos das escolas de medicina e nutrição, para que estejam alinhados com as pesquisas mais recentes sobre alimentação vegetariana e atendam aos interesses da população crescente de veganos e vegetarianos, que buscam orientação médica e nutricional, levando em conta os seus valores éticos.

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