Marina Colerato: Ecofeminismo, Veganismo e Beleza Consciente : Nanda Cury

Marina Colerato: Ecofeminismo, Veganismo e Beleza Consciente

Nanda Cury

Criou o Blog das Cabeludas, Crespas e Cacheadas (2008) e é uma das idealizadoras da Marcha do Orgulho Crespo (2015). Ambas iniciativas tem objetivo de empoderar mulheres a aceitarem seu cabelo natural. É bacharel em Relações Internacionais, Vegana e especialista em Marketing Digital.

08 de março de 2017

Conversamos sobre ecofeminismo, transição capilar, veganismo e consumo consciente com Marina Colerato, designer de moda e idealizadora do site Modefica, uma plataforma com conteúdos inspiradores – de moda a ecologia. A Marina tem 29 anos, é paulistana, vegana, tem oito cães resgatados e é feminista interseccional.

Ecofeminismo nos interessa porque leva em conta a necessidade e a urgência de incluirmos a perspectiva ambiental na luta feminista. É essencial que possamos entender e discutir de que maneira a preocupação com o meio ambiente está diretamente relacionada com a construção de uma sociedade mais justa, equilibrada e sustentável. Confiram o nosso bate-papo e acessem os links recomendados:

O que é Ecofeminismo?
Eu acredito que nada melhor do que a definição mais clássica do tema: “Ecofeminismo é um movimento filosófico que liga o feminismo com a ecologia, baseado em argumentos que provam conexões particulares e significativas entre mulheres e a natureza. Portanto o termo interpreta a repressão e exploração feminina em termos de exploração e repressão do meio ambiente.” Para quem quiser se aprofundar no assunto, entender o que é, porquê é importante e como as questões ambientais e animais estão ligadas com as questões das mulheres, confira a série sobre Ecofeminismo do Modefica.

Você tem o cabelo cacheado, mas já alisou. Quais métodos de alisamento você usava? Passou pela transição capilar? Já alisei com escova japonesa depois com progressiva e também fazia escovas e chapinha quando não alisava. Parei de usar químicas para alisar/reduzir volume há 4 anos ou mais – não sou boa com datas. Mas pra mim foi relativamente tranquilo.

Marina Colerato, está há cerca de quatro sem alisar o cabelo com químicas.

Marina Colerato, está há cerca de quatro sem alisar o cabelo com químicas.

VEGANISMO

​Como foi o processo de transição para a alimentação vegana? Foi direta ou passou pela alimentação vegetariana?
Foi bem suave, nada brusco. Fui caminhando rumo ao veganismo conforme fui crescendo pessoalmente e também absorvendo e aprendendo mais sobre a importância desse movimento em todas as questões: pessoais, sociais e ambientais, e espirituais. Comecei cortando alguns alimentos e daí em diante foi progressivo para uma alimentação à base de plantas, a escolha de produtos livre de origem animal, um posicionamento de maior respeito à Terra, etc.

Veganos são comumente tidos como “radicais”, “evangelizadores”. A que você atribui isso e como entender o tempo dos diferentes públicos que você conversa com seu site? Você acredita neste “tempo” ou não? Quem são estes públicos?
O veganismo, assim como qualquer movimento, é heterogêneo. O objetivo, que é a libertação dos animais, costuma ser o mesmo, mas as maneiras como acreditamos que devemos percorrer o caminho para chegar lá são múltiplas. Por isso pessoas, ONGs e ativistas têm abordagens diferentes para o tema. Eu entendo também que o veganismo é um movimento que tira as pessoas e a sociedade da zona de conforto e sair da zona de conforto não é fácil para ninguém – e financeiramente não é lucrativo para muita gente. Outro ponto é que é natural rejeitar o que a gente não entende e desconhecemos, taxar com adjetivos tido como pejorativos e menosprezar a pauta para não pensar sobre ela ou não carregar a culpa de ser conivente. Não é um desafio exclusivo do movimento vegano, é algo bastante conhecido por todas as pessoas que lutaram e lutam por mudanças.

Com relação ao tempo, existe sim um tempo de maturação e crescimento, todos temos e vamos continuar nesse processo até o fim das nossas vidas. Mas é impossível ignorar que é uma pauta urgente, principalmente pelas questões ambientais. Então, a gente também não tem tanto tempo assim para esperar essa maturação e crescimento. É algo que sempre tento balancear no debate e, ao meu ver, quem está começando a ter contato com isso agora tem direito a mais tempo do que quem já teve contato, já participa da discussão de maneira direta ou indireta, mas está agarrado à zona de conforto.

Alguns documentários, como o filme Cowspiracy (disponível no Netflix*) refletem sobre a relação dos nossos hábitos alimentares com a falta de alimentação no mundo. Você pode falar um pouco sobre isso?
Não há ruídos na afirmação de que alimentos de origem animal são os produtos mais elitistas quando observados a partir da questão da má distribuição de alimentos. Um consumo excessivo de água, terra para plantar milho e soja que virarão ração, terra para pasto (quando os animais têm chance de ver um pasto), além de subsídios para criar animais para abate que serão consumidos por uma parcela da população que pode consumir isso enquanto outra passa fome. Enquanto isso tem muita gente repetindo o jargão que alimentação vegetariana é cara ou é isso ou aquilo, mas não se olha com a devida atenção para essas relações de poder bastante práticas relacionadas a isso porque há mais uma necessidade de deslegitimar do que realmente debater para construir melhorias.

*Para quem não tem acesso ao Netflix, há outros filmes no Youtube, como “Terráqueos” e “A Carne é Fraca”.

Quais os benefícios o veganismo trouxe para a sua vida?
Mais consciência sobre tudo à minha volta. E apesar do veganismo ser algo que reflete na gente de forma mais tangível como melhor saúde, disposição, etc, para mim é muito mais marcante, e até importante, falar dessa sensibilidade que a gente desenvolve de maneira mais aguçada – não é uma simples janela que se abre na mente, é um portão que se escancara para todo nosso “eu” (claro que, de novo, o movimento é heterogêneo, então digo por mim e pelas pessoas à minha volta).

​Quais as dificuldades iniciais de quem quer ser vegan e como lidar com elas?
O principal, na minha opinião, é enfrentar a sociedade e a família. É importante se fortalecer, se munir de conhecimento porque o desconhecimento (sobre questões nutricionais, disponibilidade e variedade de alimentos, questões éticas e morais e até religiosas) pode ser muito prejudicial para a saúde emocional de quem está migrando para o vegetarianismo/veganismo. As pessoas fazem chacota, não respeitam, não entendem, te colocam em cheque o tempo todo. Para enfrentar isso é necessário se informar muito – principalmente com quem já passou por isso e também trabalha com isso – para não desestimular, absorver informações erradas, etc. Em outras palavras, é preciso fortalecer a musculatura pra nadar contra corrente. Risos.

Tivemos recentemente a polêmica com a chef e apresentadora Rita Lobo, que fez alguns posts sobre ortorexia, ou um “transtorno alimentar relacionado à obsessão de comer saudável”. Essa discussão, por vezes, confunde ou coloca uma lupa equivocada sobre alimentação vegana, que se relaciona com os aspectos nutricionais dos alimentos, sim, mas não exclusivamente a isso. Confiram a opinião que a Marina publicou em sua rede social sobre esse assunto:

​Como o veganismo pode ser mais popular?
Eu acredito que precisamos lutar em frentes diversas para que a alimentação à base de plantas seja melhor compreendida e mais acessível, e que Descartes (para o sádico filósofo René Descartes, os animais eram desprovidos da capacidade de sentir dor e emoções) finalmente fique para trás e sejamos capazes de incluir de maneira mais efetiva os animais e o meio ambiente no nosso círculo de moralidade. Às vezes, no veganismo, a gente bate muito na tecla da alimentação, sobre comprar X ou Y, e temos mesmo, mas é importante também ir além. A reformulação da pirâmide alimentar foi um passo, mas tem muito a ser percorrido na área médica e de nutrição, reforma agrária, conscientização da população em relação à própria saúde, além de melhorar a conversa com outros movimentos, pensando realmente de maneira interseccional. Também precisamos evoluir mais nas teorias – temos pensadoras ótimas como Carol J. Adams nos EUA e Daniela Rosendo no Brasil, mas precisamos de mais.

Comida vegana:​ Qual é o seu restaurante vegano favorito?
​Putz, não sei. Acho que o Banana Verde.

Qual é a melhor receita vegana que você já fez?
Ahhh, eu gosto de muitas. Gosto das receitas doces de alimentação crua principalmente.
* Testei e aprovei a receita de Nutella Vegana do Modefica

BELEZA, MODA E CONSUMO CONSCIENTE

Como você pratica o consumo consciente e porque é urgente que as pessoas adotem um estilo de vida mais saudável e sustentável em relação ao consumo de alimentos, moda e cosméticos? ​
Antes de qualquer coisa, é importante a gente começar a refletir sobre tudo com mais responsabilidade e sobre nosso papel no mundo. E isso vem antes do consumo. A partir do momento que começarmos a nos interessar mais pelas coisas ao nosso redor e estarmos dispostos a realmente entendermos nós mesmos como agentes nessa história toda, por a mão na massa, fazer alguma coisa, nosso consumo fatalmente entra em perspectiva. Repensar consumo é importante sim, mas é muito mais urgente repensar nossa posição como pessoas compartilhando o mundo e sobre nossas reais responsabilidades.

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